Fev 7 2010

Sinapses renitentes

Impaciência é não poder esperar. E, como todo “não-poder”, é uma limitação, de qualquer natureza que seja.

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Lembrando o verbete “Espera” dos ”Fragmentos de um discurso amoroso” de Roland Barthes, o amante é aquele que espera, quase em estado de petrificação e de imobilidade.

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Só pra retomar Valéry: A espera dilata o tempo.  A pressa o abrevia.

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Por coincidência ou não, curiosamente existe também dentro da “(im)paciência”/”(im)paciente”, a noção de passividade, que pode ser tão enxutamente condensada no sufixo “-ável” (e suas variantes).

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Quem não pode esperar, não se deixa então “passivizar”, por assim dizer?

Seguindo a mesma linha, quem não pode esperar, também não pode ocupar a posição de amante?

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Como não acontece poucas vezes, a gaia ciência da canção popular atalha os raciocínios mais longos: Saber amar é saber deixar alguém te amar.

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E, como todos os raciocínios provavelmente frutíferos, deixam uma certa margem de dúvida: se isso realmente estiver certo, o am-ante torna-se então, automaticamente, am-ável? Se isso também estiver certo, então o am-or, elemento englobante de am-ante e am-ável, exige o tempo dilatado e desacelerado?


Jan 28 2010

Sinapses pulsantes

Enquanto meu cérebro não resolve entrar em acordo com meu corpo, eu vou seguindo assim, desconectado deste e aquém daquele mundo.

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Enquanto meus pensamentos não se alinham, é nisso o que vou pensando: meus pensamentos eles-mesmos.

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Será que existe uma palavra que só significa ela mesma - e absolutamente nada além disso?

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Tem algum instrumento que pode fazer todos os ritmos do mundo … ao mesmo tempo?

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Dilema #1: ficar na monotonia e conseguir reconhecer minha própria voz ou ir para a polifonia e não conseguir mais acompanhar melodia nenhuma?

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From rags to riches: sou só eu que ando no shopping e no calçadão olhando para as roupas das pessoas como se elas fossem indígenas de uma tribo a ser descoberta?

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Também sou só eu que sinto sentimentos em forma de anagrama?

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Só pra eu não esquecer: relacionamentos devem ser considerados objetos de estudo antropológico.
- Sim, eu disse isso em voz alta hoje.
- Não, não foi uma piadinha, apesar de parecer.

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Quando a gente acha que não vai ficar com dor-de-cabeça, vai lá e fica de repente.
Quando a gente tem certeza que vai ter uma dor-de-cabeça, ela resolve de repente não aparecer.

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Quando um cachorro corre atrás do rabo, ele não sabe que aquilo é uma parte do seu próprio corpo.

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Ainda descobre o segredo do mundo …..


Jan 25 2010

Sinapses preguiçosas

Quando garoa lá fora, a gente fica quietinho aqui dentro. E quando garoa aqui dentro?

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Estou jogando pérolas bem aos poucos mesmo

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Hoje, eu queria que a vida pudesse caber na sinuosa linha melódica de uma flauta de chorinho

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Chorinho é música, é manha e é o último gole de bebida ao mesmo tempo

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Mas hoje não é dia de chorinho

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Enquanto os grandes falam demais, de empresas, de lucros, de carreira,

Eu falo devagar

Enquanto os grandes falam em fusões, em empregos, em casamento, em automóveis

Eu falo inverso

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Não gosto relógios

Não gosto de espelhos

Descobri, esses dias, é que não gosto de prisão

Relógio: prisão do tempo

Espelho: prisão do espaço

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Eu tenho *mesmo* que sair de casa hoje?


Jan 13 2010

Sinapses rotatórias

Entre gay e louco, até que não achei ruim o elogio …

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O general desfia sua épica lista de condecorações e estrelinhas brilhantes para convencer o soldado de que será uma boa idéia entrar no seu exército. Ora essa, o coturno e o fuzil são meus, eu marcho pra onde eu quiser.

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Um dia, eu quero realmente descobrir quem foi o cara que inventou essa história de “psico-neurolinguística”, porque é que ele não deu logo o nome de “mantrismo ocidental” e, principalmente, se ele achava que isso funciona.

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Quando a gente acha que o jornalismo chegou no fundo do poço, o poço afunda mais ainda

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Quando eu tiver minha casa (se é que esse dia vai chegar), ela não vai ter nenhuma espécie de gesso

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Sim, eu já bebi saquê com limão, eu sei qual é o gosto disso e é isso mesmo que eu quero pedir, hunf! (Tenho a impressão de que as atendentes leem alguma mensagem invisível na minha testa…)

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Nunca confiem num sorvete derretido: ele pode te colocar em situações intestinais constrangedoras.

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Eu ia xingar com toda minha força um fio de quenga que não me deu passagem no trânsito até descobrir que o maldito era, na verdade, uma garota lindíssima que ficou me olhando torto depois…


Jan 8 2010

Olê olê olá

para B.G.

Ultimamente, venho me convencendo cada vez mais de que aquilo que costumamos chamar de “significado” se torce e se distingue em muito das distorções que encontramos por aí em dicionários, gramáticas e outras referências sobre linguagem. E o que andou me torcendo as ideias estes dias foi justamente essa palavrinha aparentemente tão boba mas de volutas significativas um tanto retorcidas: torcer.

torcer-o-peUma breve consulta a dicionários de português on-line (confesso vai: não tive a paciência de fazer uma busca mais aprofundada…) já traz pistas no mínimo curiosas. Em primeiro lugar, a maioria esmagadora dos dicionários trouxeram em suas primeiras definições a acepção mais concreta do verbo: “fazer girar em torno de si mesmo”, “encurvar”, “enroscar” e por aí vai. Já a acepção mais abstrata de “desejar a vitória” aparece sempre só no final da lista e quase sempre conta com uma única entrada, enquanto que a acepção mais concreta (“retorcer”) conta sempre com, no mínimo, três entradas diferentes. Curiosamente, um dicionário de português lusitano não apresenta o sentido esportivo do verbo.

Mais curioso ainda é notar que os dicionários parecem ir na contra-mão das práreTorcerticas sociais da linguagem ((afinal, o que é a linguagem senão aquilo que se usa e se pratica?)) . Uma consulta rápida e preguiçosa no Google em mecanismos de busca e no Orkut em redes de relacionamento mostra que - pelo menos estatisticamente - a proporção está invertida: na verdade, um partícula minúscula dos resultados trazem contextos que atualizam a acepção concreta de “retorcer”. E, mesmo assim, uma boa parte dessas exploravam a ambiguidade do termo entre as duas acepções (incluíndo uma foto de “blog miguxo” e uma piada de loira que tenta abrir uma tampinha de garrafa…)

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De fato, a maioria inquestionável dos resultados se refere à acepção abstrata de “ser a favor de”. E mesmo em 90% destes casos o contexto estava relacionado a futebol ou a algum clube específico, o que faz essa palavra parecer bem mais banal do que ela realmente é. Muito pelo contrário, na minha opinião, “torcer” não tem nada de simplório (assim como o futebol também não, mas isso já é assunto  para outros serões): ele chega a se equiparar àqueles substantivos abstratos sempre tão propagados como entidades abstratas de tom algo divino e transcendentalizante (justiça, paz, honra, perdão, temperança etc) e os meus motivos pra isso vou explicar agora:

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Em primeiro lugar,  Torcer não se limita apenas ao futebol. É muito comum ouvir frases como “estou torcendo para aquela garota ir na festa” ou então “torça para que tudo dê certo”. E mesmo pensando no caso do futebol, todos os usos de “torcer” se aplicam perfeitamente a qualquer contexto não-esportivo.

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A princípio, o Torcer mora apenas no abstrato campo dos sentimentos e nisso em nada se distingue de qualquer outro “querer”. Assim como queremos um sorvete ou um carro, também podemos querer que algo aconteça: esta poderia ser uma definição mínima de Torcer. No entanto, ele pertence àquela classe de sentimentos que tem o poder de alterar a realidade visível e material do mundo (da mesma maneira que a promessa e o juramento). Neste sentido, o Torcer é um caso típico de performatividade: os estados de alma do sujeito interferem diretamente no estado de coisas.

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Na maioria dos casos, Torcer visa um efeito positivo, mas isso não é uma obrigatoriedade. É muito comum se deparar com casos de “torcer contra algo”. Muitas vezes isso é percebido como um chiste, o que, por um lado, acaba confirmando o parâmetro-padrão de Torcer como positivo. Por outro lado, a própria ocorrência desses casos mostra que o Torcer pode criar efeitos negativos (apesar de eles muito raramente afetarem aquele que torce) - e é claro que existem aqueles casos em que o julgamento de valor dos resultados visados é incerto.

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torcer02Ora, assumindo esse poder “performativo” do Torcer de alterar o curso dos fatos, automaticamente ganha relevo a figura do Adversário (seja ele futebolístico ou não). Se alguém quer interferir no desenvolvimento dos acontecimentos, é porque provavelmente as consequências previstas não são desejáveis para si. Em vista desse pré-sentimento, dessa previsão negativa, o sujeito torce para que tudo ocorra conforme seu desejo. Pode-se contestar este fato, é verdade, com aqueles casos em que se torce mesmo quando a situação é aparentemente favorável, por exemplo quando o time está ganhando ou quando a Torcida visa a manutenção da situação atual (“Torço para que o dia continue assim”).


Porém, em ambos casos, se assoma a sombra ameaçadora da adversidade que assola a segurança e a certeza do “status quo”. Se não houvesse o risco de a chuva estragar um belo dia de sol, não faria sentido torcer para que “tudo fique como está”. De maneira parecida, se o time adversário é fraco demais para oferecer qualquer risco ou resistência, então não há nenhuma necessidade de torcer, basta apenas gozar a alegria da vitória certeira. Quando o time já está ganhando de goleada e não há a menor possibilidade de virada, não se pode mais falar em torcida: neste caso, trata-se mais de uma louvação ou de uma celebração do que propriamente da Torcida. Somente a potencialidade do risco vir à tona - ou mais precisamente, a crença do sujeito nesta possibilidade - pode justificar a Torcida.


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“Por favor, não me vai bater o pênalti no meio do gol de novo…

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Se, até agora, consideramos o Torcer essencialmente como uma força invisível (pois que originária do campo da afetividade) capaz de alterar o estado de coisas, isso pode nos induzir a sua característica talvez mais intrigante: o torcer surge apenas quando não se pode fazer mais nada. Desprovido de todos os meios pragmáticos de interferir na realidade, não resta outra alternativa ao sujeito senão o poder cognitivo-afetivo do torcer. Caso ele pudesse tomar alguma atitude que produzisse os efeitos por ele desejados, assim ele o faria. so-nos-resta-torcer

Já que não podemos fazer nada, “só nos resta torcer”…

Se o torcedor pudesse entrar no campo para cabecear para o gol aquela bola que cruzou a área vazia, ou para defender aquela amaldiçoada bola que desempatou o jogo no último minuto do jogo, ele certamente faria isso. Se o apostador pudesse amarrar o cavalo em um carro de fórmula para ele ir mais rápido e ganhar a corrida, ele certamente faria isso. Se um jogador pudesse mudar com o dedo a posição do dado de “2″ para “6″, ele certamente faria. Mas, por contingências externas de qualquer espécie, aquele que torce não pode agir ele-mesmo sobre a realidade e, por isso, ele recorre ao Torcer com a esperança de que a força de seu desejo possa agir sobre o mundo. (Sobre isso, vale a pena conferir o curta-metragem “Barbosa”, de Jorge Furtado, e tudo isso fica bem claro)

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O Torcer se assemelha muito a uma força sobrenatural quase sagrada, que transcende as condições do mundo concreto e humano. Ele surge não só quando a situação é desfavorável (ou corre o risco de sê-lo), mas também quando, em face disto, o sujeito não dispõe de meios para alterá-la. Em outras palavras, o nascimento do Torcer  depende da insegurança e da incerteza do devir e, diante deste cenário, alguém poderia muito bem acuar-se sob o seguinte raciocínio: “Ora essa, a situação não é favorável e não temos o poder de transformá-la. Já que as remotas chances de nossa vitória não repousam em nossas mãos, é melhor não corrermos este risco”. É neste ponto que intervém a sobrenaturalidade do Torcer.

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Num gesto quase religioso, a torcida transmite a força de suas energias com as mãos espalmadas.

Como uma espécie de concessão, o Torcer parece ignorar a situação real e concreta das coisas, por assim dizer, e investe na potencialidade de uma inversão dos fatos. Mesmo que nosso time esteja perdendo de 2 a 1, ou que a chuva esteja forte. Mas se nossa torcida vingar, conseguimos virar o jogo nos acréscimos e o sol pode até aparecer no fim da tarde! O Torcer se faz indiferente, não se deixa contaminar pela mais evidente improbabilidade de tal reviravolta (talvez residam nesse ponto mesmo os efeitos milagrosos da torcida). O torcedor que hesita e perde sua confiança na torcida ao menor sinal de fracasso é imediatamente considerado “pé-frio”. Se ele chega ao ponto de depreciar aquilo que, há pouco, era o objeto de sua torcida, então ele incorpora o papel repudiável do “vira-casaca”, uma figura agourenta a ser excretada do organismo da torcida. Tanto no primeiro quanto no segundo caso, o valor da energia de torcida se esvai. Em casos extremos, esses sujeitos podem até ser tolerados, mas sua torcida assume uma credibilidade quase nula.

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Ao contrário da culpabilidade, a intensidade do Torcer se coloca em uma relação proporcional direta com o número de envolvidos. A Torcida será tanto mais eficaz, quanto mais numeroso for o grupo de torcedores. Não há nada que possa ser mais facilmente constatado do que isso: a Torcida de uma pessoa só não vale nada, é muito fraquinha para empurrar o time para frente. Por sua vez, é muito difícil enfrentar a massividade de uma  “Torcida do Flamengo” ou daquela “corrente pra frente” de “180 mil brasileiros”.


Se, do ponto de vista quantitativo, a Torcida se fortalece com a pluralidade, do pontTorcida independenteo de vista qualitativo, tal pluralidade se mostra extremamente reprovável. Em uma Torcida, podemos até ser numerosos, mas de fato somos apenas um, protegidos e unificados sob o totem do peixe, do galo, do porco ou do símbolo sagrado de nosso time. “Um bando de loco” parece resumir bem essa ideia de identidade: o substantivo coletivo é aquilo que agrupa diversos elementos sob uma única designação. Podemos até ser muitos corporalmente, mas espiritualmente somos “movidos por um ideal”, constituimos uma unidade que não deve ser dividida. No ato de Torcer, batemos palmas em sincronia, cantamos em uníssono, gritamos os mesmos nomes e ao mesmo tempo - e é assim que deve ser.

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Parece-me bem curioso um modismo recente de estampar kanjis de substantivos abstratos e escrever sua tradução logo ao lado: paz, honra, dignidade, justiça entre tantos outros. Sempre achei muito suspeitas essas traduções diretas de um ideograma oriental, principalmente quando se trata de conceitos abstratos intimamente ligados com valores morais e afetivos, sem considerar, é claro, a ilusória correspondência colocada na relação “<Isso> significa <aquilo>”. Parece também ser senso comum o fato de que os ideogramas represntam unidades conceituais bem específicas dentro das suas culturas de origem que se distanciam bastante de nossa mentalidade ocidental. Mas será que não seria também o caso de incluir nessa lista o Torcer, uma ideia talvez tão específica e especial quanto àquelas ideografadas pelos símbolos orientais, mas ainda camuflada entre nós sob cornetas, bandeiras e sinalizadores de fumaça?

colaboração especial: B.B.R.


Dez 30 2009

Causando(,) o jornalismo

causou

Exigir de jornalistas rigor e cuidado com a linguagem é uma preocupação absolutamente vã, um desperdício de paciência que quase nunca é recompensado. Não acho que toda pessoa que pise em uma redação e coloque seus dedos em um teclado deva escrever como Euclides da Cunha ou Rui Barbosa. Mas até que não cairia mal, de vez em quando,  parar para revisar o texto.

Dessa vez quem causou foi Cristina Padiglione em sua coluna* sobre televisão do Estadão On-line.  Tudo bem, é certo que o tema tolera um  tom mais coloquial (ao contrário, por exemplo, de reportagens sobre economia ou política internacional). Mesmo assim, isso não deveria justificar a escolha de um neologismo tão restrito em um jornal de abrangência nacional. Alguém poderia defender a redatora, afirmando que não se pode esperar outro registro de linguagem senão o paulista de um jornal chamado “O estado de São Paulo“. Neste caso, eu seria obrigado a rebater o argumento de que existe uma tendência do jornalismo on-line a apagar, em maior ou menor grau, suas marcas de regionalização, assim como procura comprimir o tempo ao máximo, ampliando o efeito de “imediatez”.

Não estive em todos os lugares do Brasil - e muito menos do “estado de São Paulo” - mas custo a acreditar que a gíria “causar” possa ser compreendida por todos em igual medida. Nesta hora, acho que faltou pensar um pouco no público-leitor, como rezam as doutrinas de jornalistas e publicitários. Tudo bem, pode-se até dizer que as pessoas que se interessam pelo tema são mais jovens, mais ligadas a um estilo de vida cosmopolita e, portanto, não devem ter a menor dificuldade com um neologismo como esse. Apesar disso, é muito frequente ver reportagens comentadas por internautas de todos os cantos do Brasil.

Para ninguém dizer que não sei ver o lado bom das coisas, vou agora defender a redatora de eventuais “defensores” da pureza de linguagem que talvez pudessem afirmar que a autora está usando o “português errado” e que ninguém mais sabe o “português correto”.  O verbo  “causar” - como usado coloquialmente - nunca pode aparecer antes do sujeito, ao contrário de verbos como “chegar” (“chegou a carta” = “a carta chegou”)  e “começar” (“Começou o jogo” = “O jogo começou”). Se o título da coluna fosse “Causou especial de Chico Anysio”, aí sim a redação do jornal teria motivos para se preocupar com a qualidade de sua equipe. Mas não foi esse o caso: a competência (no sentido chomskyano, e não profissional) linguística dá as caras mais uma vez e mostra que, mesmo quando um uso ou uma expressão parece inadequado, algumas regras invisíveis são seguidas à risca sem levantar qualquer suspeita. Mas enquanto isso não for unanimidade (que, aliás, não precisa ser sempre burra), continuaremos causando por aí.

* ¿Será que ainda faz sentido falar em “coluna” nos novos formatos do jornalismo on-line?


Dez 19 2009

Não vou me adaptar

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia quando ainda achava genial as crônicas de Arnaldo Jabor. Mas é que quando reparei, achei tão estranho - hoje em dia, acho que ele não diz coisa com coisa e exerce a profissão mais popular (segundo os dizeres de S. Possenti) no Brasil: palpiteiro


Dez 18 2009

Viva o capitalismo

Comprei um mouse ótico novo - e nunca imaginei que ficaria tão feliz com tão pouco =)


Dez 11 2009

Anotações do dia

Luiz Cagliari é um dos caras mais gente boa que já vi na vida. Só o que me pergunto é: porque que todo acadêmico que consegue a proesa de ser consideravelmente legal precisa ter uma esposa mala?

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Heitor Megale, a tartaruguinha da filologia, faleceu. Ele era tão clássico como Levi-Strauss mas, aparentemente, ninguém deu bola pra morte dele. (Para o Michael Jackson, ao contrário … )

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E tem gente que consegue não achar um inferno um lugar onde se leva 3 horas para ir da faculdade até em casa.

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Caprichar em trabalhinho de conclusão de disciplina é uma ideia bem ridicula: esforço demais para apenas um trabalho de graduação e de menos para que possa virar um artigo.

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“Hay que beber café, pero sin perder dinero” - Tia Jô, FFLCH-USP

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“A forma cria conteúdo e o conteúdo cria forma” - S. Possenti, epigrafado no simpósio Em Torno da Prosódia: se ele tivesse lido Wisnik, tinha resolvido o problema com muito mais pertinência.

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A impaciência é uma fraqueza disfarçada de vontade de fazer: na verdade, o sujeito se mostra incapaz de se conter, ele não pode deixar de agir.  Lembrando sempre o velho pensamento que falar também é agir.


Nov 23 2009

Criatividade profissional

Todo mundo sempre ouve falar que o mercado de trabalho exige cada vez mais profisisonais criativos. Porém, o que se vê nas entrevistas de emprego é exatamente o oposto: as respostas mais convencionais para as perguntas mais previsíveis. Ao invés de dar o exemplo nesse quesito, os selecionadores insistem na velha pergunta manjada “Se você fosse um animal, qual seria? E por que?”.

Como profissionais ultracapacitados 2.0 “cases de sucesso”, vamos mostrar para as empresas o que é criatividade no novo cenário corporativo. Eu vou começar e quero ver o que vocês sugerem também:

“… eu seria um coala, porque é capaz de dormir 23 horas seguidas.”