Out 14 2011

Efêmero I

Agora
Acorda agora
que é pra agora
Que é pra já
Já é pra ontem
Já tá atrasado
Não vai dar
Não dá tempo
Não dá
Não.
Não agora.
Agora não.

Antes de começar, já era para estar começado
Antes de chegar, já é pra ir com antecedência
Para não se atrasar
Quando for mesmo a hora de chegar
Mas se o trânsito parar
Se o motor falhar
Se o rio alagar, se o preço aumentar
Se o salário abaixar, se a mulher brigar
Não vai dar pra chegar
Não vai dar, não vai
Corre, é urgente, é agora
Mas agora já passou
Agora já era
E o que já era, já foi
E você,
Sempre tentando ser o que não foi
O que já foi
O que já era
O que agora já não é mais.


Set 16 2011

Fim

“Então, acabou. Não queria dizer isso de um jeito tão direto assim, mas é melhor eu já colocar tudo o que já venho sentido desde algum tempo sem maiores rodeios. Afinal, não há mais motivos mesmo para prolongar tanta dor. Se muitas coisas não estão dando certo entre a gente, é melhor nos separarmos e ficar bem longe um do outro. Não me diga que não estou pensando em você quando tomo esta decisão. Muito pelo contrário: penso muito em você, em seus complexos, em seus dilemas insolúveis. E justamente por pensar em tudo isso decidi que não quero mais você. Não quero mais estar com você e suas complicações tortuosas. Não quero mais as decepções que você me traz e nem das suas promessas de um futuro juntos e sem sustos. Eu pensei em você, sim, e é por você que eu estou desistindo, que estou indo embora. Pegar as minhas coisas que ainda ficaram com você e partir. A partida é triste, eu sei, mas em breve você não vai ter a menor lembrança de mim. Nem você, nem aqueles que ficam do teu lado, te cobrindo de elogios. Vão dizer que eu me acovardei, que isso não é atitude de homem de honra. Vão dizer que eu podia ter persistido, te me esforçado para viver contigo. Mas eu não quero mais. Cansei de tentar, cansei de me desgastar. Não quero mais te ver. Acabou para nós, querido mundo.”


Mar 17 2011

More than words

Incontáveis poetas, romancistas e filósofos marcam suas produções escritas com uma reflexão profunda sobre a natureza da palavra. Ainda que cheguem a destinos completamente distintos, o ponto de origem parece ser sempre o mesmo: um poder misterioso – ao mesmo tempo banal e onipotente – da palavra.

De um lado, uma visão esvaziante segundo a qual “palavras são apenas palavras” e não podem realmente atingir aquela essência verdadeira, somente atingível pela razão pura ou pelos atos (que, supostamente, manifestam genuinamente aquilo que as palavras apenas “representam”).

De outro lado, uma visão de veio misticista que atribui à palavra um poder total sobre as emoções, os pensamentos e até mesmo sobre o estado de coisas. É deste ponto de vista que se diz também que pode se conhecer um homem pelas suas palavras. Da mesma fonte, nasce a crença de que falar uma palavra ruim (uma doença grave, por exemplo) pode atrair a coisa que ela denomina.

Na foz bifurcada da questão sobre a real natureza da palavra, não se pode afirmar exatamente quem é que está com a razão sobretudo porque a questão relevante não se encontra na desembocadura da reflexão, mas sim em sua origem. Se é que há algo aí que valha a pena ser investigado e, possivelmente, descoberto, este algo se encontra ali na nascente.

E esta nascente aqui apelidada de J.P. continua, com mais ou menos frequência, a me verter essas pedras preciosas – simultaneamente esvaziadas e onipotentes – que luzem diante dos meus olhos assombrados. A mim, nada mais cabe no momento senão contemplá-las com os olhos extasiados de quem um dia espera encontrar a nascente.

“a dor que mais me machuca é a que eu sinto na minha pele”

“Se eu estivesse lá no Japão frente a uma moça que perdeu toda sua família não ousaria dizer “filha, erga as mãos para o céu e agradeça; você não tem mais casa, não tem mais ninguém, não tem água para beber, mas REFLITA: ao menos você não tem anorexia. Oh, yeah!”

“Veja quais negociações pode fazer consigo mesma. Se você não conseguir negociar com você, alguém aparecerá e começará a impor”

“Podem me achar linda, burra, chata, interessante, inútil, tagarela, irritante, sensível, mala… Achem o que quiser. Tenho muito, mas MUITO pouco a ver com isso. Às vezes não tenho NADA a ver com isso.”


Nov 17 2010

Notas rasgadas

Nachsitzer, allzu Nachsitzer

***

Tem dias que a gente se sente, como quem voltou ou reviveu

***

A ideologia rasteja debaixo do tapete da linguagem:

“Maloca” é uma moradia indígena.

“Maloqueiro” é um jovem da periferia. Mas pode ser também “alguém que vem da maloca”. E quem mora na maloca é um indígena.

Pelas frestras das palavras, os outsiders vão sendo equiparados e marginalizados num mesmo reduto lexical, numa mesma maloca.


Out 4 2010

Despedida

para V.S.L.

Um par de polainas

Uma lasanha

E só.

resgatado de Plunct Plat Zum, 12 de Novembro de 2006


Out 1 2010

Um dia

Ajeitou o chapéu. Franziu a sobrancelha. Tomou um gole do café. Bateu duas teclas da máquina de escrever. Alisou o papel entre os dedos. Olhou para a parede. Tragou o charuto. Alisou o papel entre os dedos. Tomou um gole do café. Ajeitou o chapéu. Tragou o charuto. Bateu uma tecla da máquina de escrever. Franziu a sobrancelha. Olhou para a parede. Tomou um gole do café. Olhou para a parede. Franziu a sobrancelha. Alisou o papel entre os dedos. Ajeitou o chapéu. Bateu algumas teclas da máquina de escrever. Tragou o charuto. Olhou para o papel. Ajeitou o charuto. Tomou um gole do café. Alisou o chapéu entre os dedos. Tragou um fôlego. Bateu a tecla da máquina de escrever. Franziu o papel. Tragou o café. Ajeitou o papel. Tomou um gole de fôlego. Alisou a sobrancelha entre os dedos. Franziu o chapéu. Bateu duas teclas da máquina de escrever. Olhou para o charuto. Bateu uma tecla da máquina de escrever. Olhou para o café. Franziu a parede. Tragou o papel. Alisou o charuto entre os dedos. Tomou um gole do café. Ajeitou a sobrancelha. Franziu o charuto.  Alisou o café entre os dedos. Olhou para o chapéu. Ajeitou a sobrancelha. Tomou um gole do café. Bateu a tecla na máquina de escrever. Tragou o papel.


Set 21 2010

Eternidade

A gota pinga. O círculo cresce. A gota pinga. O círculo cresce. A gota pinga. O círculo cresce. O gota pinga. A círculo cresce. O cota pinga. A cirgulo cresce. O circuta pinga. A gola cresce. O círculo pinga. A gota cresce.


Set 18 2010

Um fim de tarde

O charuto repousava sobre a superfície confortável da mesa. Ele se sentou. Pegou o jornal. Passou os olhos por algumas palavras, pensou qualquer coisa sobre aquilo. Sorveu um pequeno gole de café, olhou devagar para fora da janela. Levantou, caminhou até a fotografia, deitou-a sobre a superfície empoeirada de algum móvel. Passou os olhos por algumas lembranças, pensou qualquer palavra sobre aquilo. Sorveu um leve soluço de saudade, olhou devagar para dentro da xícara de café. Caminhou até a poltrona. Ele se sentou. O cachecol repousava sobre a superfície sórdida do sofá. Pegou o controle remoto. Olhou devagar para o botão vermelho. Pensou qualquer coisa sobre a fotografia. Passou os olhos pelas linhas do assoalho. Sorveu um pequeno suspiro de suspense. Levantou, caminhou até o cachecol, olhou devagar para o longo fio de cabelo enrolado na lã. O olhar repousava sobre a superfície trançada do desejo. Sorveu um rastro de perfume, pensou qualquer coisa sobre a janela. Caminhou até a xícara de café, deitou-a sobre a superfície fria de seu colo. Ele se sentou. Pegou o açucareiro, olhou devagar para os grãos brancos minúsculos. Passou os olhos pela colherzinha sobre a mesa, pensou qualquer coisa sobre talheres. Levantou, caminhou até a pia. Os pratos repousavam sobre a superfície  imóvel de uma prateleira. Pegou o pires, sorveu um pequeno hiato de silêncio. Olhou para o desenho na porcelana, pensou qualquer coisa sobre harmonias. Passou os olhos pela despensa com pacotes de comida pela metade. Caminhou até a mesa. Ele se sentou. O charuto repousava sobre a superfície confortável da mesa.


Ago 16 2010

A puta falta de sacanagem do deputado Vicentinho

Já há algum tempo atrás, estourou na rede o vídeo de uma garota reclamando da puta falta de sacanagem do cancelamento do show da banda Restart. O deslize da garota rendeu toneladas de piadas virtuais até atingir aquele estado em que o episódio salta das teias da rede virtual e povoa o cotidiano de carne-e-osso de modo que não é mais necessário explicar do que se trata.

Como sempre, a vítima do incidente é escruciada por uma legião de humoristas virtuais (que na vida real nem sempre conseguem sê-lo). Apesar de divertido, senti dificuldades de achar o episódio *muito* engraçado – ou pelo menos na mesma medida que tantas pessoas acharam. Além do estado de descontrole emocional da garota, tendo a levar em conta que, em não raros casos, algumas palavras podem ter acepções exatamente opostas, como já foi esclarecido por S. Possenti sobre o caso do termo handicap. Além disso, fazer tanta piada por uma coisa tão boba parece declarar – de maneira maliciosamente implícita – quem é o “dono do sentido das palavras”, autorizado a dizer quem é que sabe o “certo” e quem é que o desconhece.

Este assunto – um pouco ultrapassado já, por sinal – serve na verdade apenas como comparação a um outro incidente de mesmo nível que testemunhei nesta época de eleições. Com o começo das campanhas, surgem cada vez mais os folhetos de deputados com seus sorridentes apoiadores em nível federal. Desta vez, a puta falta de sacanagem foi do deputado Vicentinho (PT-SP), ou então da equipe responsável pelo seu material de divulgação – não chega a fazer tanta diferença assim. Em determinado ponto do texto propagandístico, é ressaltado o empenho do candidato Vicentinho na “luta contra todo o tipo de discriminalização”.

Será que, neste caso, a dupla negação resulta também em uma negação (pois é a única maneira de obter uma conotação positiva)? Terá sido um erro bobo de correção que trocou, equivocadamente, “discriminação” por “discriminalização”? Ou será que o redator escolheu este termo convictamente sem consultar antes um dicionário e apostando em sua intuição linguística de “falante nativo”?

Aqui, pouco me importa o percurso político, as propostas do candidato ou a legitimidade de seus apoiadores*. Ao invés disso, só quero colocar o panfleto do deputado Vicentinho e a fala desesperada da fã da banda Restart em pé de igualdade. A puta falta de sacanagem de uma garota Emo não deveria ser mais punível do que aquela de um candidato a uma vaga na Câmara dos Deputados. Se o erro crasso da garota mereceu tantas sátiras pretensamente engraçadas, creio que o deslize da campanha eleitoral de Vicentinho também mereça o mesmo tratamento.

Ou então, paramos com a pedância de controlar o “sentido verdadeiro das palavras” e deixamos ambos em paz para falar e escrever como bem entenderem.

* Comentários de cunho político em tom ufanista ou ofensivo serão excluídos, independentemente de sua orientação.


Ago 5 2010

Tempo é dinheiro vs. conhecimento é poder

Se a voz do povo é a voz de Deus, então Deus deve ser cruel ou ter algum problema de raciocínio lógico. Ou então – o que é mais simples é evidente – o povo é que não bate bem das ideias e a voz de Deus não está muito aí para as tonterías do povo, que afirmam que “tempo é dinheiro” e “conhecimento é poder”. Se for assim, então pode-se deduzir logicamente que dinheiro não é poder e conhecimento não é tempo. Um malabarismo lógico-algébrico poderia igualar essas quatro grandezas e tentar provar que tempo, poder, dinheiro e conhecimento são a mesma coisa, ou pelo menos se equivalem.

Porém, a realidade concreta já deixa bem claro que essa equiparação nunca pode ser verdadeira.

Uma pessoa que queira adquirir conhecimento vai procurar meios para atingir este objetivo, como ler e comprar livros. Nada mais natural, então, que esta pessoa recorra a um lugar que venda livros – a Livraria Cultura, por exemplo. Considerando que esta pessoa esteja interessada em adquirir conhecimentos de semiótica e linguistica – que vai um pouco além da literatura culinária de fontes grandes e margens largas – então fica evidente que não se pode manter ambas equivalências sem amargar uma perda em alguma das partes em uma típica relação exclusiva de “ou…ou”: ou tempo e dinheiro, ou conhecimento e poder. Este raciocínio algo abstrato é muito simples de ser entendido:

Com o valor de R$ 1643,96 cobrado por um livro de H. Parret pode-se muito bem adquirir um iPad, que por sua vez poderá armazenar centenas de outros livros.  Pode-se comprar também um notebook relativamente bom, que também poderá não apenas armazenar centenas de livros, como também realizar todas as funções que um computador normalmente desempenha. Ou então comprar dois netbooks, que substitui muito bem um computador comum, excetuando as funções de ler e gravar Cds e Dvds. Ao invés disso, a pessoa também pode comprar um kit Xbox ou então uma passagem de avião de ida e volta para um casal até o Chile. Ou então a pessoa pode comprar uma porção de tranqueiras interessantes porém absolutamente dispensáveis, como um abridor de vinho em formato de homenzinho, um frigobar, um box de Dvds de um filme ou seriado mediano, máquinas culinárias, roupas esportivas de uma marca de primeira linha, expansões e acessórios para videogames, entre outros.

Mas, caso a pessoa precise ou queira adquirir conhecimento, ela pode abrir mão de toda essa infinitude de superfluidades lúdicas para adquirir um único livro que ela precisa – até porque não se pode de modo algum, “deixar de comprar este para pegar dois com a metade do preço”, ao contrário do que se faz com roupas, guloseimas etc. Neste caso, é bem delicado ficar com os dois pares de equivalências que já citei: ou se dispendia a quantia no livro necessário, ou abre-se mão do livro em função da soma por ele exigida.

Ou então deixa-se de ser idiota e para-se de comprar na Livraria Cultura.