Nov 13 2009

Morfemas, raízes e vegetais

“Abobrinha” não tem nada a ver com “Abóbora”


Nov 12 2009

Haikai passageiro

Carro atrás de carro
Lentidão na marginal
Por-do-sol vermelho


Nov 7 2009

Linha Siegfried / Maginot

Cada vez mais me convenço de que estudar alemão é uma autoflagelação deliciosamente recompensadora. Neste final de semana, descobri que a palavra “Efeito” tem  dois cognatos em alemão: Effekt e Effet. A diferença é que a segunda se aplica somente para contextos esportivos, como na expressão “uma bola com efeito“. Isso signifca que, em alemão, as duas palavras nunca seriam confundidas enquanto que, em português, a mesma palavra é usada em “a polícia usou bombas de efeito moral” e “o goleiro não pegou a bola com efeito“. É por essas e outras que sinto um prazer quase masoquista em aprender essa língua (que, a propósito, não existe somente no Olimpo inatingível de filósofos e escritores!). O único problema é que não posso responder esse tipo de coisa quando as pessoas - principalmente entrevistadores de escolas de idiomas - me perguntam porque estudo alemão…

***

Lévi-Strauss morreu. Essa era realmente a coisa mais improvável que poderia acontecer. Até mesmo a morte de Michael Jackson não me parecia tão surpreendente assim - até porque o cara já estava todo esfolado, nem tinha mais uma pele e um nariz próprios, já estava fora de cena há tempos, indo e voltando entre tribunais e hospitais. Agora, qual intelectual vetusto eu vou citar nas rodinahs de conversa sobre o velho tema “quem é que já foi pro saco”? Pois bem, pelo menos os textos dele continuam vivos e sempre continuarão (pelo menos como um pequeno eco na oposição clássica Vida vs. Morte, Natureza vs. Cultura do quadrado semiótico :) ) - essa é uma das vantagens de escrever/produzir alguma coisa que vá além do curto prazo de nossas próprias vidas ….

É, o Levi-Strauss morreu …


Nov 2 2009

Momento Sasha

Eu não costumo ficar implicando com ortografia: além de ser uma pentelhação inútil, a maioria dos tais erros seguem também uma lógica invisível que sempre tento descobrir.

Mas o que esse cara conseguiu fazer foi tão espetacular que eu tive de capturar para guardar na minha gaiola de bizarrices.

Nas minhas leituras pela vida, já me acostumei a encontrar palavras como “roliço” (gordo), “caniço” (vara de pescar), “postiço” (não precisa explicar, né… ), “castiço” (puro) entre outras. Mas eu ainda vou consegui descobrir o significado de “puriço”! Ah, seu tivesse sido alfabetizado em inglês …

purico

É puriço que eu não vou mais entrar no Yahoo!Respostas…


Oct 26 2009

Enquanto isso, na videolocadora …

[Atendente quase-simpática] - Olá, posso ajudar em alguma coisa?
[Eu] - Hmm… eu estou procurando um filme que se chama “Morte em Veneza”, vocês teriam por algum acaso?
[Outra atendente] - O nome não seria “O Mercador de Veneza”?
[Eu] - Não, não … é “Morte em Veneza” mesmo :)
[Atendente quase-simpática] - Espera só um minutinho, eu vou procurar aqui no cadastro …
[Eu] - ((esperando))
[Atendente quase-simpática] - Olha, esse filme não consta aqui não. Eu vou dar uma olhadinha lá no nosso arquivo para ver se ele está disponível, você aguarda um minutinho?
[Eu] - Claro.

(Muitos minutinhos depois)

[Atendente quase-simpática] - Oi, voltei! Então, eu dei uma pesquisada, o filme que você tá procurando existe sim, mas infelizmente a gente não tem ele disponível no nosso acervo. Se for o caso, você pode conversar depois com o nosso gerente e solicitar a compra, e aí a gent vai estar disponibilizando ele para as próximas vezes
[Eu] - Ah..tudo bem, obrigado …

Até que de vez em quando eu acho graça em piadinhas gratuitas, mas ainda não cheguei no nível de sair de casa na chuva pra alugar um filme que não existe…


Oct 25 2009

Autoajuda corporativa a Herênio

Não é de hoje que Max Gehringer usa expedientes retóricos um tanto sem-vergonhas para empacotar e vender todo seu conhecimento sobre o “mundo corporativo”. :)

Também não é de hoje que venho falando sobre as possibilidades sórdidas de adotar uma dessas carreiras profissionais “moderninhas” e não regulamentadas. :D

A novidade mesmo foi descobrir que tem gente que realmente pensa nisso como alguma coisa séria :P como esse executivo que pretende virar um orador corporativo palestrante e, para isso, recorre aos conselhos proféticos de outro.

Não sei se foi um pouco de ingenuidade do sujeito imaginar que existe “informações disponíveis” sobre uma tal “carreira de paestrante”, ¿mas será que isso seria sinal de um renascimento, aqui e ali, de Cíceros engravatados que recebem para mover os afetos do seu auditório, o qual crê, com isso, adquirir know-how conhecimento tácito e agregar valor a sua carreira?


Oct 23 2009

Arqueologia

Aparentemente, limpar o quarto não parece ser uma das atividades mais cheias de adrenalina daquelas que merecem ir pras telas de cinema. Mas, de vez em quando, eu até que me sinto um arqueólogo quando encontro rabiscado em um papel qualquer, sem data e sem título, um poema como esse que transcrevo aí embaixo:


Bela lua
Noite nua
Olhar silêncio pulsar
Hábil lábil
Laço fácil
Faço a luz apagar
A voz sussurrar
Sustenido sorrir
Coração em coração
Harmônica batida
Colo colado no colo
Ritmado ondular
Em compasso corporal
Contato de pele
Harmônio hormônico
Dedilhado
Afinado
Ofegante sopro
Toca ouve sente
Estremecente tato
Cordas coxas
Arrepia
Sinfonia
Sobre os corpos
Silencia


Oct 20 2009

Blazed

Foi em um repente sem susto que minha vista começou a ficar esfumaçada. Assim, quase como se fosse um procedimento médico, senti minha nuca mordida por um lagarto invisível que sangrou a minha carne com suas presas serrilhadas, aquele fio de lava escorrendo lentamente pelo meu pescoço e descendo pelo meu peito. Desde então, os meus ouvidos calefazem cada palavra d’água que goteja neles, minhas pupilas não param de palpitar mesmo no escuro silencioso do quarto e meus lábios cerrados parecem ferver de desejo e de condenação. Desde então, as minhas narinas exalam cinzas e fumaça, denunciando a ebulição de camadas mais profundas do centro da terra, e toda chance é sempre a última. Desde então, meus pés deixam para trás pegadas incineradas e não existe mais caminho de volta. Quando os agudos dentes reptéis atingiram minha coluna vertebral, fui presenteado com uma auréola de vapor que circunda minha cabeça e irrita os olhos daqueles que estão à minha volta. As pontas dos meus dedos sujam de fuligem tudo aquilo que tocam e o meu sopro cansado no fim do dia deixa escapar pequenos detritos de combustão sem oxigênio. Sob o pulso do coração, o meu espírito estrepita e consome qualquer matéria inflamável que se aproxima. A minha pele, que antes afagava ao leve toque, agora arde sem nenhum sinal de um se abrandar. Desde que fui invadido por essa chama que me arde sem ninguém ver, o mundo parece ter ficado inócuo e impotente como as coisas mornas que teimam em não esfirar mas não bastam para aquecer.


Oct 16 2009

Fenomeno - lógico

Você sabe por que o seu cachorro fica um tempão olhando para a parede e latindo sem parar?

- Porque ele consegue perceber coisas que você não consegue.


Oct 10 2009

Remember, remember that 11th September

Ah, aquele 11 de Setembro. Depois daquele dia, o mundo nunca mais foi o mesmo. E quem podia imaginar que aquilo alguma vez iria acontecer? Quem teria tido a fantasia insensata de profetizar em voz alta aquele acontecimento improvável? Quem poderia saber que esse tipo de coisa acontece mesmo na vida real, muito além do que as ficções meio ingênuas do cinema poderiam conceber?

Era de uma verossimilhança às avessas, que transferia para a realidade fria e de ventinho gelado os fatos que, até então, pareciam somente possíveis em mundos inventados. O encontro daqueles dois corpos, muito mais do que improvável, impensável, explodiu todas as convicções, tão sólidas como a certeza de que nunca seríamos atacados em nosso próprio território de maneira tão contundente e inesperada. Aquela distância aérea, talvez de muitos quilômetros lá no alto de alguns andares, parece ter sido abreviada em alguns centímetros por um vôo inflexível, certeiro e inevitável.

De repente, o choque. O calor, o fogo, a onda flamejante que incendiava e derretia todos os alicerces mais firmes daquilo que iconizava a nossa soberania, os gritos, os olhares perplexos, os fragmentos do impacto se espalhavam por toda a parte, os gritos, os olhares perplexos e paralisados, que ainda não tinham o tempo de não acreditar naquilo que tinha acontecido.

Apesar de não ter durado mais do que alguns instantes, a cena foi reproduzida diversas vezes como se, repetindo os fatos intensamente diante de nossas retinas, pudéssemos compreender tudo e buscar explicações racionais que explicassem, com a típica sobriedade dos que tem a palavra, como e porque é que tudo isso aconteceu. Muito se comentou, se especulou, buscaram fontes de informação para investigar todas as evidências de que isso iria acontecer. Algumas vozes afeitas à conspiração chegaram a dizer que os nossos governos tinham, sim, informações suficientes comprovando essa possibilidade e que, por um motivo qualquer, cometeram um erro ao não tomar providências para evitar o ocorrido. Apesar de algumas provas bem convenientes, a acusação de negligência não se fez convincente e, até hoje, ninguém conseguiu encontrar os responsáveis.

No final das contas, nada do que se falou por aí conseguiu dar explicações tranquilizadoras. Independentemente disso, sempre vão ficar na minha memória as imagens daquela cena, dos meus olhos fechados, da minha taquicardia e do meu estremecimento diante da explosão que eu nunca tinha visto em meu próprio território. Desde então, o mundo parece mesmo ter tomado outros rumos.

Jamais esqueçamos aquele 11 de Setembro.