Olê olê olá

para B.G.

Ultimamente, venho me convencendo cada vez mais de que aquilo que costumamos chamar de “significado” se torce e se distingue em muito das distorções que encontramos por aí em dicionários, gramáticas e outras referências sobre linguagem. E o que andou me torcendo as ideias estes dias foi justamente essa palavrinha aparentemente tão boba mas de volutas significativas um tanto retorcidas: torcer.

torcer-o-peUma breve consulta a dicionários de português on-line (confesso vai: não tive a paciência de fazer uma busca mais aprofundada…) já traz pistas no mínimo curiosas. Em primeiro lugar, a maioria esmagadora dos dicionários trouxeram em suas primeiras definições a acepção mais concreta do verbo: “fazer girar em torno de si mesmo”, “encurvar”, “enroscar” e por aí vai. Já a acepção mais abstrata de “desejar a vitória” aparece sempre só no final da lista e quase sempre conta com uma única entrada, enquanto que a acepção mais concreta (“retorcer”) conta sempre com, no mínimo, três entradas diferentes. Curiosamente, um dicionário de português lusitano não apresenta o sentido esportivo do verbo.

Mais curioso ainda é notar que os dicionários parecem ir na contra-mão das práreTorcerticas sociais da linguagem ((afinal, o que é a linguagem senão aquilo que se usa e se pratica?)) . Uma consulta rápida e preguiçosa no Google em mecanismos de busca e no Orkut em redes de relacionamento mostra que - pelo menos estatisticamente - a proporção está invertida: na verdade, um partícula minúscula dos resultados trazem contextos que atualizam a acepção concreta de “retorcer”. E, mesmo assim, uma boa parte dessas exploravam a ambiguidade do termo entre as duas acepções (incluíndo uma foto de “blog miguxo” e uma piada de loira que tenta abrir uma tampinha de garrafa…)

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De fato, a maioria inquestionável dos resultados se refere à acepção abstrata de “ser a favor de”. E mesmo em 90% destes casos o contexto estava relacionado a futebol ou a algum clube específico, o que faz essa palavra parecer bem mais banal do que ela realmente é. Muito pelo contrário, na minha opinião, “torcer” não tem nada de simplório (assim como o futebol também não, mas isso já é assunto  para outros serões): ele chega a se equiparar àqueles substantivos abstratos sempre tão propagados como entidades abstratas de tom algo divino e transcendentalizante (justiça, paz, honra, perdão, temperança etc) e os meus motivos pra isso vou explicar agora:

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Em primeiro lugar,  Torcer não se limita apenas ao futebol. É muito comum ouvir frases como “estou torcendo para aquela garota ir na festa” ou então “torça para que tudo dê certo”. E mesmo pensando no caso do futebol, todos os usos de “torcer” se aplicam perfeitamente a qualquer contexto não-esportivo.

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A princípio, o Torcer mora apenas no abstrato campo dos sentimentos e nisso em nada se distingue de qualquer outro “querer”. Assim como queremos um sorvete ou um carro, também podemos querer que algo aconteça: esta poderia ser uma definição mínima de Torcer. No entanto, ele pertence àquela classe de sentimentos que tem o poder de alterar a realidade visível e material do mundo (da mesma maneira que a promessa e o juramento). Neste sentido, o Torcer é um caso típico de performatividade: os estados de alma do sujeito interferem diretamente no estado de coisas.

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Na maioria dos casos, Torcer visa um efeito positivo, mas isso não é uma obrigatoriedade. É muito comum se deparar com casos de “torcer contra algo”. Muitas vezes isso é percebido como um chiste, o que, por um lado, acaba confirmando o parâmetro-padrão de Torcer como positivo. Por outro lado, a própria ocorrência desses casos mostra que o Torcer pode criar efeitos negativos (apesar de eles muito raramente afetarem aquele que torce) - e é claro que existem aqueles casos em que o julgamento de valor dos resultados visados é incerto.

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torcer02Ora, assumindo esse poder “performativo” do Torcer de alterar o curso dos fatos, automaticamente ganha relevo a figura do Adversário (seja ele futebolístico ou não). Se alguém quer interferir no desenvolvimento dos acontecimentos, é porque provavelmente as consequências previstas não são desejáveis para si. Em vista desse pré-sentimento, dessa previsão negativa, o sujeito torce para que tudo ocorra conforme seu desejo. Pode-se contestar este fato, é verdade, com aqueles casos em que se torce mesmo quando a situação é aparentemente favorável, por exemplo quando o time está ganhando ou quando a Torcida visa a manutenção da situação atual (“Torço para que o dia continue assim”).


Porém, em ambos casos, se assoma a sombra ameaçadora da adversidade que assola a segurança e a certeza do “status quo”. Se não houvesse o risco de a chuva estragar um belo dia de sol, não faria sentido torcer para que “tudo fique como está”. De maneira parecida, se o time adversário é fraco demais para oferecer qualquer risco ou resistência, então não há nenhuma necessidade de torcer, basta apenas gozar a alegria da vitória certeira. Quando o time já está ganhando de goleada e não há a menor possibilidade de virada, não se pode mais falar em torcida: neste caso, trata-se mais de uma louvação ou de uma celebração do que propriamente da Torcida. Somente a potencialidade do risco vir à tona - ou mais precisamente, a crença do sujeito nesta possibilidade - pode justificar a Torcida.


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“Por favor, não me vai bater o pênalti no meio do gol de novo…

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Se, até agora, consideramos o Torcer essencialmente como uma força invisível (pois que originária do campo da afetividade) capaz de alterar o estado de coisas, isso pode nos induzir a sua característica talvez mais intrigante: o torcer surge apenas quando não se pode fazer mais nada. Desprovido de todos os meios pragmáticos de interferir na realidade, não resta outra alternativa ao sujeito senão o poder cognitivo-afetivo do torcer. Caso ele pudesse tomar alguma atitude que produzisse os efeitos por ele desejados, assim ele o faria. so-nos-resta-torcer

Já que não podemos fazer nada, “só nos resta torcer”…

Se o torcedor pudesse entrar no campo para cabecear para o gol aquela bola que cruzou a área vazia, ou para defender aquela amaldiçoada bola que desempatou o jogo no último minuto do jogo, ele certamente faria isso. Se o apostador pudesse amarrar o cavalo em um carro de fórmula para ele ir mais rápido e ganhar a corrida, ele certamente faria isso. Se um jogador pudesse mudar com o dedo a posição do dado de “2″ para “6″, ele certamente faria. Mas, por contingências externas de qualquer espécie, aquele que torce não pode agir ele-mesmo sobre a realidade e, por isso, ele recorre ao Torcer com a esperança de que a força de seu desejo possa agir sobre o mundo. (Sobre isso, vale a pena conferir o curta-metragem “Barbosa”, de Jorge Furtado, e tudo isso fica bem claro)

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O Torcer se assemelha muito a uma força sobrenatural quase sagrada, que transcende as condições do mundo concreto e humano. Ele surge não só quando a situação é desfavorável (ou corre o risco de sê-lo), mas também quando, em face disto, o sujeito não dispõe de meios para alterá-la. Em outras palavras, o nascimento do Torcer  depende da insegurança e da incerteza do devir e, diante deste cenário, alguém poderia muito bem acuar-se sob o seguinte raciocínio: “Ora essa, a situação não é favorável e não temos o poder de transformá-la. Já que as remotas chances de nossa vitória não repousam em nossas mãos, é melhor não corrermos este risco”. É neste ponto que intervém a sobrenaturalidade do Torcer.

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Num gesto quase religioso, a torcida transmite a força de suas energias com as mãos espalmadas.

Como uma espécie de concessão, o Torcer parece ignorar a situação real e concreta das coisas, por assim dizer, e investe na potencialidade de uma inversão dos fatos. Mesmo que nosso time esteja perdendo de 2 a 1, ou que a chuva esteja forte. Mas se nossa torcida vingar, conseguimos virar o jogo nos acréscimos e o sol pode até aparecer no fim da tarde! O Torcer se faz indiferente, não se deixa contaminar pela mais evidente improbabilidade de tal reviravolta (talvez residam nesse ponto mesmo os efeitos milagrosos da torcida). O torcedor que hesita e perde sua confiança na torcida ao menor sinal de fracasso é imediatamente considerado “pé-frio”. Se ele chega ao ponto de depreciar aquilo que, há pouco, era o objeto de sua torcida, então ele incorpora o papel repudiável do “vira-casaca”, uma figura agourenta a ser excretada do organismo da torcida. Tanto no primeiro quanto no segundo caso, o valor da energia de torcida se esvai. Em casos extremos, esses sujeitos podem até ser tolerados, mas sua torcida assume uma credibilidade quase nula.

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Ao contrário da culpabilidade, a intensidade do Torcer se coloca em uma relação proporcional direta com o número de envolvidos. A Torcida será tanto mais eficaz, quanto mais numeroso for o grupo de torcedores. Não há nada que possa ser mais facilmente constatado do que isso: a Torcida de uma pessoa só não vale nada, é muito fraquinha para empurrar o time para frente. Por sua vez, é muito difícil enfrentar a massividade de uma  “Torcida do Flamengo” ou daquela “corrente pra frente” de “180 mil brasileiros”.


Se, do ponto de vista quantitativo, a Torcida se fortalece com a pluralidade, do pontTorcida independenteo de vista qualitativo, tal pluralidade se mostra extremamente reprovável. Em uma Torcida, podemos até ser numerosos, mas de fato somos apenas um, protegidos e unificados sob o totem do peixe, do galo, do porco ou do símbolo sagrado de nosso time. “Um bando de loco” parece resumir bem essa ideia de identidade: o substantivo coletivo é aquilo que agrupa diversos elementos sob uma única designação. Podemos até ser muitos corporalmente, mas espiritualmente somos “movidos por um ideal”, constituimos uma unidade que não deve ser dividida. No ato de Torcer, batemos palmas em sincronia, cantamos em uníssono, gritamos os mesmos nomes e ao mesmo tempo - e é assim que deve ser.

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Parece-me bem curioso um modismo recente de estampar kanjis de substantivos abstratos e escrever sua tradução logo ao lado: paz, honra, dignidade, justiça entre tantos outros. Sempre achei muito suspeitas essas traduções diretas de um ideograma oriental, principalmente quando se trata de conceitos abstratos intimamente ligados com valores morais e afetivos, sem considerar, é claro, a ilusória correspondência colocada na relação “<Isso> significa <aquilo>”. Parece também ser senso comum o fato de que os ideogramas represntam unidades conceituais bem específicas dentro das suas culturas de origem que se distanciam bastante de nossa mentalidade ocidental. Mas será que não seria também o caso de incluir nessa lista o Torcer, uma ideia talvez tão específica e especial quanto àquelas ideografadas pelos símbolos orientais, mas ainda camuflada entre nós sob cornetas, bandeiras e sinalizadores de fumaça?

colaboração especial: B.B.R.


Uma Resposta

  • B.B.R. Diz:

    Tá bom, me convenceu.

    Agora matute com a palavra que eu estou matutando… ou melhor, a expressão:

    “Eu espero que dê certo”, o que se junta muito ao torcer… Se você está fazendo algo, ou vai fazer, você não pode usar um verbo “estático”.

    “Eu espero que as pessoas gostem”. Tradução coxística de “I hope”???

    Matute comigo, caro amigo…

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